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O Uso Correto do Tempo

Por; Morris Safdié.



Muitas vezes ouvimos as pessoas afirmarem: "Gostaria que o dia tivesse 48 horas para dar conta de tu¬do o que tenho de fazer" ou então: "Não tenho tempo, estou muito ocu¬pado". Porém, nunca ouvimos seres evoluídos dizerem que não têm tempo para resolver alguma coisa. Por quê?

Sri Aurobindo disse: "Se você for impulsionado pelo ego, pelo desejo pessoal, o tempo lhe será um elemen¬to obstrutor, um inimigo, mas se você tiver aspiração verdadeira, se estiver receptivo ao Divino, consagrado ao Di¬vino, o tempo se converterá em ins-trumento. Você começará a conseguir coisas, e avançará cada vez mais com a passagem do tempo".

Podemos perceber que o tempo tem várias dimensões. Existe a di¬mensão material, do relógio, do calen¬dário, das agendas, que podemos cha¬mar de tempo externo. E existem ou¬tras, internas, imateriais. Por exemplo, quando estamos no meio de um engar-rafamento de trânsito numa cidade grande, cinco minutos se arrastam e parecem muito longos. Mas quando estamos contemplando um pôr-do-sol, esses mesmos cinco minutos têm valor completamente diferente. Vê-se então que para a percepção subjetiva o tempo pode se contrair ou expandir, conforme nosso estado de espírito. Trata-se da vivência de uma dimen¬são interna do tempo, diferente da¬quela do tempo do relógio. Temos certa familiaridade com isso, embora nem sempre prestemos muita atenção ao fato. Enquanto o tempo do relógio é linear e está fora de nós, esse outro tempo está dentro de nós e depende da nossa atitude e sintonia.

Se pensamos não ter tempo para nada é sinal de que ainda estamos presos ao esquema material das coisas e das situações e de que não permitimos à energia da alma fluir em nós e por nosso intermédio. Não ter tempo é ser escravo de ritmos alheios, de condicionamentos, de programas. Mas podemos liberar-nos disso sem deixar de cumprir nossas tarefas.

A primeira providência a tomar é a de planejar o dia, a semana e, em alguns casos, o mês. E a partir daí ter clareza sobre as prioridades. Precisa¬mos nos perguntar: "Qual é a prio¬ridade da semana? E a de hoje? O que preciso alcançar, o que estou buscan¬do? Qual é a minha meta?"

Ao procurar gerenciar o tempo da melhor forma possível, vamos ver que, conforme nossa meta, há atividades mais importantes e outras menos im¬portantes. E veremos também que al¬gumas são urgentes, enquanto outras não.

Estudos sobre esse tema mostram que se desempenhamos só atividades urgentes e importantes, se ficamos o tempo todo resolvendo crises e proble¬mas, é sinal de que nos está faltando planejamento. Se, por outro lado, nos delongamos em atividades pouco im¬portantes, desperdiçamos tempo. O ideal seria nos aplicarmos em ativi¬dades importantes e não urgentes. Assim poderíamos identificar oportu¬nidades, planejar, e dessa forma evi¬tar futuras urgências. Esse é um pre¬ceito prático que nos pode ajudar.

Contudo, o segredo não está no planejamento em si, mas na clareza quanto às prioridades. Sem ela, é difí¬cil lidar com o tempo de forma corre¬ta. E só poderemos saber o que é mes¬mo prioritário se formos muito bem ordenados.

Algumas pessoas, ao despertarem de manhã, procuram ver tudo o que têm a fazer no dia. E às vezes vêem que são muitas as tarefas, mais do que caberia em seu programa. Porém, ao ofertarem o dia ao seu eu superior e ao se aquietarem diante desse qua¬dro, vendo-o com desapego e distanci¬amento, enxergam que só há ali duas ou três tarefas de fato essenciais. To¬do aquele acúmulo se desfaz e resta o que é realmente para ser feito. E com maior facilidade essas pessoas serão instrumentos para a obra do eu supe¬rior.

Pode ocorrer que, depois de plane¬jarmos o dia e estabelecermos da me¬lhor forma possível as prioridades, aconteça algo fora desse esquema. Devemos então perceber se aquilo é real, se deve mesmo ser atendido. Se estivermos conectados com nosso ní¬vel intuitivo e recebermos dele uma indicação, poderemos com tranqüili¬dade sair do esquema previsto.

Na nossa organização, é da maior importância não ficarem pendências. Tudo o que temos de fazer hoje, não deixemos para amanhã. Se estivermos em dia, sem atrasos, poderemos nos concentrar melhor em cada momento. E o presente é sagrado, é tudo.

Toda a nossa vida entra em harmonia e fatos inusitados começam a suceder, como o de uma pessoa pedir-nos ajuda e vermos os compromissos marcados se desfazerem por si mesmos para permitir-nos atender aquela necessi¬dade. Mas se ficarmos sempre corren¬do atrás das coisas, na ilusão de es¬tarmos atarefados demais, o que é verdadeiramente importante não virá porque não nos encontrará recep¬tivos.

Para lidarmos bem com o tempo material precisamos estar bem aten¬tos ao que se passa. Por exemplo, en¬quanto conversamos com alguém, será que permanecemos inteiros ou¬vindo a pessoa ou já ficamos pensan¬do no que Vamos fazer depois? É essencial observarmos isso.

Se a alma permeia o que fazemos, entra em ação uma energia maior, que dá outra qualidade ao cotidiano. E se pode, como disse Paul Brunton, "fazer de cada ato uma reverência à vida". Devemos reconhecer que todas as coisas têm valor, que nada deve ser banalizado. E passamos então a ser mais precisos, porque não ficamos antecipando com a mente o que vem em seguida. Tudo isso nos ajuda a en¬trar em outro ritmo, a fazer uso cor¬reto do tempo.

Mas para estarmos inteiros no momento, desapegados dos resulta¬dos da ação, não podemos ter dúvida de que aquela é a prioridade. Se hou¬ver dúvida, ficaremos divididos e a energia não fluirá. Vem a sensação de estar faltando algo. É aí que vamos prolongando inutilmente uma ativi¬dade. Do contrário, se soubermos ser aquela a prioridade e permanecermos concentrados no momento, tudo acontecerá e não haverá divisão. Se tivermos certeza de que devemos es¬tar ali, nada mais contará. Poderá en¬tão ocorrer de a percepção do tempo externo deixar de existir e de entrarmos na sua dimensão imaterial. Continuaremos ali enquanto for preciso. Não um minuto, nem dois, nem cinco, mas o tempo necessário. E assim a ação adquire outra qualidade. Transcenderemos a idéia de tempo e a idéia de que não temos tempo.

Quando alguém se conecta com o seu superior, sua vida externa fica influenciada pela interna. É por isso que os seres evoluídos sempre têm tempo para fazer tudo o que é importante.



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